![]() |
Fonte: www.escrivaninha.net.br |
Meus pais não
me ensinaram a beijá-los. Não teve essa coisa de abraço e de intimidades em
casa. Sabíamos que nos amávamos, simplesmente a partir do cuidado que um tinha
pelo outro.
Lembro-me que
quando criança, na escola, fazia aquelas lembrancinhas de papel, em que a gente
escrevia “eu te amo, mamãe". Sinceramente, enquanto participava dessa
atividade até me sentia bem, mas depois, ao me deparar com a possibilidade de
entregá-la a minha mãe, vinha o desconforto.
Eu passava a sexta e o sábado todinho,
pensando num jeito de dizer a ela “Feliz Dia das Mães”, e dar um beijo e um
abraço, quando chegasse o domingo de manhã. E por mais que ensaiasse, no dia, o
máximo que eu conseguia fazer era dar a lembrancinha e um abraço rápido sem
falar nada. Sofria, mas não desejo para ninguém a força contrária que faz uma
prisão de sentimentos, como a que havia em mim.
Confesso que
me senti aliviado, quando cresci porque não precisava mais fazer as tais
lembrancinhas para o Dia das Mães. Você vai pensar que estou criticando quem
pratica isso, mas o que realmente estou dizendo é que para mim, esse sempre foi
um momento de profunda angústia.
Depois de adulto, eu comprava presentinhos
para ela, mas, dono de mim, sentia-me menos mal, entregava com alegria e utilizava
o pensamento e o olhar para apresentar meu amor.
Como eu queria
que ela soubesse ler minha mente e eu a dela! Somente assim saberíamos traduzir
as palavras ocultas naqueles silêncios carregados de ternura, que era a única
coisa que sabíamos expressar.
Você vai se
espantar, mas me dará razão.
Com o passar
do tempo, não houve mais comemoração do Dia das Mães naquela data estabelecida,
e penso que mamãe entendeu o que fiz. É que, nunca mais esperei chegar o
segundo domingo de maio para dar alguma coisa a ela; o que eu podia dar, passei
a fazê-lo no dia a dia.
Assim também
foi com o seu aniversário. Todo dia era dia de comemorar a sua vida e, sendo eu
a pessoa que mais conheceu sua simplicidade, sabia que um aniversário feliz
para ela era aquele que se comemorasse da forma mais simples possível.
Só eu sabia o
quanto ela se incomodava, na sua timidez, quando cantavam os parabéns e solicitavam
que ela soprasse as velinhas!
Num dia
desses, mesmo eu não tendo dado nenhum presente a ela, como fizeram meus irmãos
ao virem nos visitar, minha mãe me perdoou quando me disse: “não precisa, você
já me dá tudo.” Ou quando noutra vez ela expressou: “Você é um filho de ouro”.
Só agora,
depois de tanto tempo, ao lembrar as frases emblemáticas que ela me disse com
tanta dificuldade, finalmente compreendi o amor que ela expressou a primeira
vez,cuidando de mim em seu ventre e a gratidão por vivermos juntos os últimos
dias. E se antes eu me sentia culpado de
fazer pouca festa, de não mostrar mais o meu lado carinhoso, o que me consola é
saber que era exatamente desse jeito que ela gostava.
Desculpe-me
pela emoção! Mas agora depois de dois anos, eu choro novamente.
Neste domingo
que antecede ao do Dia das Mães é que, fazendo um bolo, comecei a pensar em
quando ela sentava à cabeceira da mesa e untava a forma, enquanto eu batia os
ingredientes.
Pensei também,
enquanto batia a massa, no que pedi a Deus naquela semana em que a vi fraquinha
e com movimentos lentos. Que Ele não a levasse sem que antes eu conseguisse
expressar com um beijo o meu amor e a minha gratidão.
Ah, se eu
soubesse! Mas na sexta-feira à noite quando ela estava internada, eu lhe disse
a seguinte frase: “mãe, eu vou pra casa, mas amanhã eu volto no horário de
visita”, e depois disso dei-lhe “o beijo” postergado por tantos anos. Fiquei sabendo que, depois da minha saída,
ela chorou.
No sábado de
manhã, minha mãe e meu coração, os dois partiram.
© Carlos José dos Santos – Todos os Direitos Reservados
Acesse também: http://entrementes.com.br/category/colunistas/carlos-santos/
Caro Carlos José, você escreve seguindo um roteiro né, pelo que percebi; vou ler com bastante calma; sucesso e abraços.
ResponderExcluirCaro amigo das letras, pelo que percebo você escreve histórias seguindo um roteiro como se fosse cinema etc né? abraços, vou ler com bastante calma os capítulos. Sucesso.
ResponderExcluirPessoas ilustres como você podem vir sempre que quiserem. Meu intuito é fomentar a leitura nessa nação de nomes tão premiados na literatura. Abraço.
ResponderExcluir